Comida impressa em 3D como experiência no universo gastronômico de um futuro, nem tão distante assim.

A digitalização dos negócios e a intensificação do uso de canais digitais de interação com os consumidores são exemplos de tendências que já se manifestaram no mercado, e cada vez mais, apresentam uma forte aceleração no que diz respeito a mudanças do universo gastronômico. Os novos hábitos de consumo, se mostram, não apenas como um desafio para as empresas de alimentação, mas também como uma necessidade no mundo que vivemos.

De acordo com o estudo Brasil Food Trends 2020, pôde-se observar que os movimentos de mudança no comportamento dos consumidores se apresentavam com uma lentidão maior no passado, e que atualmente, o panorama é distinto: onde se registra uma “redução exponencial dos intervalos de tempo necessários a transformações mais significativas”.

Assim, entendesse que o mercado alimentício também é um espaço de entretenimento, e que existem quatro vertentes importantes a serem analisadas, a partir dessas premissas:

  • Sensorialidade e Prazer:

A sensorialidade e o prazer, estão diretamente ligados onde existam uma maior valorização de artes culinárias e experiências gastronômicas por parte do consumidor, que impacta diretamente na prestação de serviços e desenvolvimento de produtos por parte da indústria, como ir a um restaurante novo na cidade, com uma menu diferente do que se está acostumado, por exemplo.

Sensorialidade e Prazer
  • Conveniência e Praticidade:

Onde os consumidores baseiam suas escolhas de acordo com o ritmo de sua rotina, buscando economizar tempo e esforços para se alimentar. Assim, passam a optar, por exemplo, por refeições prontas, congeladas, alimentos de fácil preparo e, principalmente, pelo delivery.

Conveniência e Praticidade

Mas é muito fácil dizer que produção e o consumo de alimentos se modificam ao longo do tempo. E é claro, que se há uma aceleração tecnológica no mundo que vivemos, ela está diretamente ligada a alimentação. Se, no passado, a terra era o único fator de produção, hoje, o uso da tecnologia coloca na mesa quantidade e diversidade de alimentos, igualmente nutritivos. Na esteira desse avanço, surge o delivery que, com a pandemia e o isolamento social, ganhou protagonismo no abastecimento de alimentos.

O consumidor vem buscando informações sobre a cadeia de produção e buscando propósito nos produtos que for consumir, assim como as marcas que os produzem. Serviços como o iFood, Rappi e Uber Eats se destacaram no Brasil e acabaram se tornando necessidade com a chegada da pandemia em 2020, estimulando o consumo e influenciando hábitos da população, seja pelo aumento de pedidos de um mesmo usuário, seja pela adesão de novos às plataformas de entrega de comida.

Vistas como soluções para as novas demandas do mercado, as startups de delivery oferecem uma infinidade de alternativas, com cozinhas cada vez mais especializadas.

Delivery como soluções para as novas demandas do mercado

Dados do setor mostram um salto de 155% no número de usuários de março a abril do ano passado, quando o estimado para o período era de 30%. O crescimento de pedidos também acompanhou o crescimento de usuários, atingindo expressivos 975% de aumento.

E o futuro da alimentação, onde entra nesses questionamentos?!

Delivery, comidas congeladas, dark kitchen — conhecidas no Brasil por cozinhas fantasmas — e a alimentação à base de plantas são pautas que já vem ganhando o mercado, e que estão, muitas vezes expressados nas tendências inovadoras brasileiras. Mas outra realidade, ainda pouco falada no país, é as comidas impressas no 3D.

Desde 2014, o uso de impressoras tridimensionais para a produção de alimentos vem sendo testado ao redor do mundo, e são responsáveis por produzir alimentos com potencial único, onde se pode criar estruturas geométricas complexas, permitindo a produção em diferentes quantidades e, ao mesmo tempo, trazendo benefícios econômicos e ambientais a quem consome. É como uma técnica, com base na tecnologia, que permite a criação de alimentos personalizados com base em propriedades específicas relacionadas às necessidades nutricionais, ingestão de calorias, forma, textura, cor ou sabor específico, onde todas as características devem ser mantidas.

Além desses desafios, esta tecnologia ainda apresenta algumas limitações para seu uso, como custo e tempo elevado para produção em larga escala. Por estes, e outro motivos, a técnica de impressão 3D ainda não é considerada como sendo uma substituta da indústria convencional na fabricação de alimentos. No entanto, tudo indica que no futuro poderemos preparar nossas refeições imprimindo um alimento que apresente o sabor, textura, aroma e cor da carne.

Em 1984, o estadunidense Chuck Hull desenvolveu uma técnica de impressão em três dimensões (altura, profundidade e largura). Desde então, diversos produtos puderam ser desenvolvidos, baseados na sobreposição de camadas de um material específico.

Por conta de seu processo minimalista de produção, essas máquinas 3D’s, futuramente, poderão evitar que seja usado um volume maior de ingredientes maléficos na alimentação, além de calcular corretamente qual seria a porção ideal para que o prato sirva a todos em um jantar, por exemplo. No caso de uma escala industrial, o corte do desperdício traria um volume de economia ainda maior.

Um dos grandes benefícios da impressora 3D para alimentos é a capacidade de alinhar a comida e a tecnologia. Os alimentos produzidos diretamente com a impressão 3D também irão proporcionar uma melhor escolha do que comer, com a diminuição do consumo de alimentos industrializados. Isso trará uma alimentação mais saudável e melhor para a população em geral, inclusive podendo diminuir drasticamente o consumo de conservantes.

As altas quantidades de açúcar, sal e gordura dos alimentos industrializados seriam então reduzidos somente ao necessário e ao paladar de cada pessoa, graças ao alto nível de personalização da impressão 3D.

Professor e pesquisador de alimentação impressa, Oded Shoseyov, da Hebrew University of Jerusalem, acredita que a impressão 3D de alimentos trará outro ganho à população: a redução de impactos ao meio ambiente, como uma arma contra o desperdício.

“A impressão 3D de alimentos nos dará precisão, exatidão e controle — exigências para a tecnologia culinária futura que vão permitir a otimização de processos, a conservação de propriedades nutricionais e a personalização, ou seja: a adaptação da comida às problemáticas de determinadas populações”. Explica Castells, químico de formação, lecionado em Harvard, no curso de Ciência e Cozinha, e pesquisador sobre o futuro da alimentação. Embora se diga certo da mudança, Castells não arrisca opinar quando uma ferramenta assim estará disponível. “Acredito que ainda falte um tempo até que a tecnologia se consolide e assegure que os cartuchos de alimentos cumpram com as regras de segurança alimentar.”

Exemplo 1:

Uma empresa espanhola chamada Natural Machines desenvolveu um protótipo, aparelho chamado Foodini, que consegue fazer alimentos variados, como tipos de masas , hambúrgueres, pizzas, chocolates, biscoitos, entre tantos outros.

De acordo com Lynette Kucsma, cofundadora e CMO da Natural Machines: “Acreditamos que em 10 a 15 anos, as impressoras 3D de alimentos se tornarão um utensílio de cozinha comum em cozinhas domésticas e profissionais, semelhante a como um forno ou micro-ondas são eletrodomésticos comuns. nas cozinhas hoje. A impressora permitiria que as pessoas se tornassem fabricantes de alimentos.“

A maquina incorpora dois elementos principais: recheios e criação. Os recheios, propriamente ditos, é a comida que é impressa mesmo. E os ingredientes são depositados nas cápsulas de aço inoxidável disponíveis dentro da impressora. Como a Foodini só comporta um ingrediente por vez, receitas mais elaboradas exigem um tempo maior de preparo da máquina. Mesmo assim, ela foi criada para ser uma opção rápida e de qualidade para quem não tem tempo para cozinhar.

Muitos dos alimentos produzidos, hoje na alimentação convencional, são perdidos ou desperdiçados. Por isso, a Foodini tem como objetivo promover o uso de ingredientes produzidos localmente, evitando o desperdício de alimentos. Com uma uma tela interativa de 10 polegadas, e com conexão Wifi, faz com o que o dispositivo inteligente tenha o seu próprio software para editar ou desenhar refeições de forma personalizada. Além das cinco cápsulas que são intercambiáveis ​​para permitir criações flexíveis e complexas.

Entendendo isso, destaca-se que o modo de preparo é simples: o consumidor precisa selecionar em uma tela a receita e a posição da impressão (vertical ou horizontal). A própria máquina instrui quais ingredientes devem ir dentro de cada uma das cinco cápsulas — como molhos ou vegetais batidos no processador. Depois disso, é só esperar!

Exemplo 2:

Outro exemplo que temos hoje no mercado é o protótipo feito por Chloé Rutzerveld, pensado em transformar a alimentação humana em algo mais natural, sustentável e saudável. O Edible Growth, ou crescimento comestível, em sua tradução literal, é um projeto da food designer holandesa que mistura alimentação, tecnologia, jardinagem e impressão 3D.

A ideia baseia-se em um revestimento impresso em um tipo de ‘terra comestível’ feita de carboidratos, esporos, sementes e leveduras. Depois isso, cinco dias são necessários para que os elementos germinem e apareçam, e o snack esteja pronto para ser consumido.

A designer conta que a impressão de comidas saudáveis e sustentáveis a partir de organismos vivos poderia transformar a indústria alimentar e, quiçá, um possível gatilho para acabar com a fome no mundo.

No entanto, trata-se ainda apenas de um protótipo que exige anos de pesquisa para concretizar-se, dada as inúmeras questões envolvendo tecnologia 3D e segurança alimentar.

Exemplo 3:

Diferentemente de ter a própria impressora em casa, o destaque é os restaurantes se adaptarem a tendência: e o Food Ink é um bom modelo para ser observado.

Food Ink, o primeiro restaurante de impressão 3D do mundo

O Food Ink une arquitetos, artistas, chefs, designers, engenheiros, futuristas, inventores e entusiastas de indústria e tecnologia. E se autointitula como o primeiro restaurante que serve “comida 3D”. Mesmo que não tenha um local físico, com endereço e CEP, o Food Ink é um “restaurante móvel” que está rodando o mundo para apresentar as criações.

A missão do Food Ink é explorar a interseção entre uma refeição e uma experiência potencializada pela tecnologia. Já passaram por inúmeros países do mundo, como Londres, Berlim, Dubai, Seul, Roma, Tel Aviv, Barcelona, Paris, Amsterdã, Toronto, Nova York, Taipei, Las Vegas, Tóquio, Singapura, Los Angeles, Cape Town, Sydney e Reykjavik. O Brasil ainda é um desejo, mais precisamente na cidade de São Paulo, mas ainda não há uma data definida.

E quando poderemos ter as nossas próprias impressoras em casa? Serão 30 anos de espera?

Não, longe disso! Já disponíveis no mercado, mas com um preço maior que o desejado pelos consumidores. Pesquisas mostram que no ano de 2050, estima-se que 80% da população da terra residirá em centros urbanos. E que a população vai aumentar em 3 bilhões de pessoas, passando para quase 10 bilhões de seres humanos no planeta Terra. Para alimentar essas pessoas com práticas tradicionais de cultivo, seria necessário que um território 20% maior que o Brasil fosse preparado para agricultura. Hoje, cerca de 80% das terras cultiváveis já estão sendo usadas no mundo todo. A conta não fecha!

Além disso, a agricultura tradicional está esgotando a camada superior do solo, rica em nutrientes, necessária para o cultivo da maioria dos alimentos.também requer fertilizantes, herbicidas e pesticidas, que escapam das terras agrícolas e poluem os ecossistemas rio abaixo.

Muito se enxerga a cozinha como uma atividade exclusivamente humana. E é possível que pessoas que apostam nessa tecnologia dentro do setor sofram certo pré conceito, partindo de quem consome, e que acredita que esse é o futuro da nossa alimentação. Assim como foi nos anos 70, com a chegada do micro-ondas.

Por outro lado, tal tendência pode estimular a participação humana na cozinha, sendo considerada uma nova categoria dentro da gastronomia. Quem sabe essa tecnologia não chega a lugares com poucas condições de agricultura e resultando em um acesso mais fácil…

Trazendo para a realidade brasileira, onde são desperdiçadas mais de 20 milhões de toneladas de alimentos, o uso de impressoras 3D garantiria que o consumo seja feito sob demanda, o que reduziria esse desperdício. No requisito plástico, também teríamos uma queda significativa, onde não haveria necessidade do uso de embalagens, e como o alimento é feito em casa, não seria necessário o transporte, diminuindo a poluição por CO2, por exemplo.

Será mesmo esse o futuro que nos espera na gastronomia? Em um mundo que, cada vez usamos menos a impressora para imprimir papel, — resultado esse que o mundo digital tomou conta — iremos começar a usar outra impressora para imprimir comida? Será mesmo? Quem sabe daqui a alguns anos volto quando o assunto for normatizado por aí…